Redação do Site Inovação Tecnológica - 15/01/2022
Sobrevoo cósmico
Astrônomos captaram pela primeira vez um evento dramático, que não deve ser tão raro em termos cósmicos, mas que certamente é extremamente difícil de observar.
Um objeto intruso - uma estrela que não pertence ao sistema que estava sendo observado - aproximou-se e detonou com o ambiente ao redor de uma protoestrela binária, causando a formação de correntes caóticas de poeira e gás no disco que cerca o binário.
Esses chamados "eventos de sobrevoo" já foram explorados à exaustão em simulações de computador, e até em filmes de ficção científica, mas nunca haviam sido confirmados com dados observacionais.
"Evidências observacionais de eventos de sobrevoo são difíceis de obter porque esses eventos acontecem rápido e é difícil capturá-los em ação. O que fizemos com nossas observações com o ALMA e o VLA é equivalente a capturar um raio atingindo uma árvore," disse Ruobing Dong, astrônomo da Universidade de Vitória, no Canadá.
ALMA é o radiotelescópio móvel do Observatório Europeu do Sul, instalado em um planalto no deserto do Atacama, Chile, a 5.500 metros de altitude. VLA é a sigla do tradicional radiotelescópio Karl G. Jansky Very Large Array, instalado do Novo México, nos EUA.
Trombada estelar
O evento dramático foi detectado no sistema estelar Cão Maior Z (Z CMa).
Perturbações, ou distúrbios, como este visto agora não são tipicamente causados por corpos celestes intrusos, mas geralmente por estrelas irmãs crescendo juntas no espaço.
Mas a morfologia - a estrutura - das correntes de matéria e criadas neste caso ajudou os astrônomos a identificar e localizar o intruso.
"Quando ocorre um encontro estelar, ele causa mudanças na morfologia do disco - espirais, deformações, sombras etc. - que podem ser consideradas impressões digitais do sobrevoo. Neste caso, olhando com muito cuidado para o disco do Z CMa, revelamos a presença de várias impressões digitais do sobrevoo," contou Nicolás Cuello, da Universidade Grenoble Alpes, na França.
Essas impressões digitais não apenas ajudaram a identificar o intruso, mas também a mostrar o que essa interação poderá significar para o futuro do sistema planetário e os planetas que estão nascendo no sistema, um processo que até agora permanece um mistério para os cientistas.
"O que sabemos agora com esta nova pesquisa é que os eventos de sobrevoo ocorrem na natureza e que eles têm grandes impactos nos discos circunstelares gasosos, que são os berços de nascimento dos planetas, ao redor das estrelas bebês," disse Cuello. "Os eventos de passagem podem perturbar dramaticamente os discos circunstelares em torno das estrelas participantes, como vimos com a produção de longas serpentinas em torno do Z CMa. "